Ricardo Campos |
Temos pouco conhecimento do primeiro regente da Filarmónica Pampilhosense. O pouco que se sabe é retirado duma das primeiras actas lavradas em 1920, que passamos a transcrever utilizando a ortografia da época:
Acta da sessão de 5 de Maio de 1920
"Aos cinco dias do mêz de Maio de mil novecentos e vinte, reuniram-se na escola oficial d’esta freguezia Pampilhoza do Botão, a direcção da filarmónica em organização para tomar conhecimento e deliberar sobre os seguintes assumptos: Primeiro - tomar conhecimento, por combinação feita entre o prezidente da direcção e o Dr. Lebre, notário na Mealhada, de que a escriptura da sociedade será feita no próximo Domingo dia nove do corrente; segundo – tomar conhecimento de que o regente da filarmónica será o Sr. Ricardo Campos de Coimbra o qual virá ganhar trêz escudos por cada ensaio, tendo a sociedade de lhe pagar as viagens e jantar numa das Hospedarias da estação; terceiro – tomar ainda conhecimento d’algumas ofertas para as despezas da múzica, sendo deliberado que os nomes dos ofertantes focem citados numa acta; quarto – e por último foi deliberado que a filarmónica fica-se denominada “Filarmónica Pampilhozense”, sendo aprovados todos os assumptos tratados conforme vão designados".
O Prezidente,
Guilherme Ferreira da Silva
Manuel Maria Simões Pleno |
Nascido em Santana Ferreira, em 1889, foi um músico distinto que prestigiou a sua terra e, pela educação dada a seus filhos, transmitiu à sua geração o gosto pela música.
A muito custo, aos 16 anos conseguiu que o seu pai lhe desse permissão para aprender solfejo. O seu instrumento de eleição foi o clarinete.
Já depois de casado com Ana de Jesus Ferreira assentou praça em Engenharia, em Lisboa. Aí, tomou contacto com diversas colectividades musicais, tocando o instrumento com que se iniciou. Numa dessas colectividades deu lições de Teoria e Harmonia Musical. Depois de cumprido o serviço militar, regressou a Santana e continuou a ser executante na Filarmónica, notando-se-lhe grande aperfeiçoamento.
Em Liceia, organizou-se uma Filarmónica e Manuel Pleno foi convidado para ser o seu Regente, tendo sido ali que escreveu a sua primeira marcha, ainda hoje recordada. Depois passou a reger a Filarmónica Santanense e deixou a de Liceia.
Entretanto estalou a 1.ª Grande Guerra, de 1914-18, e Manuel Pleno foi mobilizado. Voltou para Lisboa e aí aprendeu a tocar saxofone alto, instrumento ainda pouco conhecido. Terminando de vez o serviço militar, regressou à sua filarmónica retomando o lugar de regente que durante a sua ausência foi desempenhado pelo seu irmão Carlos Pleno.
Após algum tempo, deixou a banda de Santana e fixou-se em Arazede, regendo a banda da localidade. Aceitou também um convite para reger a Filarmónica Pampilhosense. Tendo-lhe sido oferecido um ordenado para reger a filarmónica de Angeja, que a de Arazede reconheceu não poder equiparar, passou a residir ali continuando a deslocar-se à Pampilhosa para os ensaios regulares. Numa destas viagens teve um acidente na estação dos Caminhos de Ferro da Pampilhosa e o seu filho Joaquim Pleno substituiu-o nas funções de regência da Filarmónica Pampilhosense.
Passou por várias filarmónicas: Santana, Liceia, Tocha, Arazede, Pampilhosa, Angeja, Cantanhede, Santa Comba Dão, Vila Nova de Poiares, Penacova, Alcobaça e Ferreira do Zêzere. Gasto com o rodar dos anos, Manuel Pleno voltou a fixar-se na sua terra natal regendo a banda até a saúde o permitir.
Numa visita ao seu filho Joaquim, a 14 de Maio de 1962, aos 73 anos de idade, faleceu vítima de ataque cardíaco. Jaz no cemitério velho da Pampilhosa, onde também foi sepultado Joaquim Pleno, em 2001.
Joaquim Simões Pleno |
Joaquim Maria Simões Pleno nasceu em Santana (Figueira da Foz), no dia 15 de Outubro de 1908. É um dos dez filhos do matrimónio de Manuel Maria Simões Pleno com Ana de Jesus Ferreira. A sua formação musical foi efectuada pelo seu Pai (também músico e Maestro), notando-se-lhe grandes capacidades para a composição. Começou a tocar flautim na Filarmónica Santanense aos oito anos, tendo composto a sua primeira canção por volta dos 9 anos de idade. Frequentou a escola, de onde sai sem completar o 4.º ano. Para ajudar a família, vai trabalhar para uma serração de madeira. Como Manuel Pleno havia sido convidado para reger a banda de Arazede (Montemor-o-Velho), toda a família se mudou para ali, onde Joaquim conheceu o Professor, hábil a tocar violino, embora tivesse parcos conhecimentos musicais. Joaquim pediu-lhe então que o preparasse para o exame do 4.º ano e, como forma de pagamento, ensinava-lhe teoria musical e solfejo. Lentamente, a sua formação musical consolida-se, merecendo a confiança de toda a comunidade. Após o falecimento de um tio, que dirigia a banda de Liceia (Montemor-o-Velho), Joaquim Pleno foi convidado para o substituir, tendo iniciado assim a sua carreira como Regente. Aos 16 anos viajou para a Pampilhosa com o seu Pai, que aceitou um convite para dirigir a Filarmónica Pampilhosense. Tendo sofrido um acidente em 1926, Manuel Pleno passa a batuta ao jovem Joaquim, que se mantém no comando durante 64 anos. Entretanto, casou com Paulina de Melo Lindo, que lhe deu quatro filhos, Sílvio, Manuel, Natália e Rosa, tendo os rapazes enveredado por uma carreira como músicos militares e compositores. Joaquim Pleno, durante a sua vida, esteve à frente das bandas de Liceia, Arazede, Poiares, Barcouço, S. João de Areias e Pampilhosa, bem como das Tunas de Souselas e Franciscas (Cantanhede). Foi o compositor exclusivo da Casa “Olímpio Medina” de Coimbra. Escreveu centenas de composições para filarmónicas e orquestras, tendo-se inscrito na Sociedade Portuguesa de Autores. A sua obra estará espalhada por todo o mundo, assinada por si e também pelo seu pseudónimo, Talarosa (junção dos nomes das suas filhas, Natália e Rosa). Entre outras homenagens, foi-lhe atribuída, em 12-5-1991, a medalha concelhia de Mérito Cultural pela Câmara Municipal de Mealhada, e, em 25-4-1999, na sua última homenagem em vida, prestada pelo Povo da Pampilhosa, o seu nome ficou perpetuado no coreto da Vila. Foi regente da Filarmónica Pampilhosense até 1990, quando foi substituído pelo seu filho Manuel Pleno, falecendo em 29 de Junho de 2001, com 92 anos de idade. Jaz no cemitério Velho da Pampilhosa. Parte da sua obra está exposta no Museu de Etnomúsica da Bairrada (Troviscal – Oliveira do Bairro).
Manuel Lindo Pleno |
Nascido na Pampilhosa a 27 de Setembro de 1936, iniciou os seus estudos musicais aos sete anos com o seu Pai Joaquim Pleno, estreando-se na Filarmónica Pampilhosense tocando caixa, mudando depois para requinta. Com 18 anos alistou-se no Exército, na Banda de Música do RI 12, em Coimbra. Em 1956 fez Exame para 1.º Cabo Músico e no mesmo ano efectuou o Exame para Furriel Músico. No ano seguinte foi promovido e colocado na Banda do RI 16, em Évora, como solista em clarinete. Em 1959 iniciou a sua carreira como regente na Filarmónica Lorvanense. Em 1964 fez parte da Orquestra Cívica de Lourenço Marques – Moçambique. Foi regente da Escola do Grupo Amadores de Música Eborense, da Banda Carlista de Montemor-o-Novo, da Banda de Estremoz, Casa do Povo de Penacova, Santana Ferreira, B. V. Espinho e Pinheiro da Bemposta. Em 1978 frequentou o curso para promoção a Sargento-chefe. Colocado como subchefe da Banda da RMC, formou a Orquestra Ligeira, sendo de seguida transferido para o RIP, como professor de Música no curso de formação de Sargentos. Em 9 de Junho de 1979, foi promovido a Sargento-mor Músico e colocado como subchefe da Banda do Exército. Dirigia a Banda de Música de Anadia quando, em 1990, devido à enfermidade de seu Pai, passou a dirigir também a Filarmónica Pampilhosense. Frequentou, no Conservatório Nacional de Lisboa, o Curso de Pedagogia Musical, tendo como Professores Jos Wuytack, Margarida Amaral e Verena Maschat. Tendo-se desvinculado da Banda de Anadia em 1996, passou a dedicar-se exclusivamente à Composição e à Filarmónica Pampilhosense, sendo o seu Maestro titular e coordenador da Escola de Música. Pela sua mão, a Filarmónica tornou-se uma banda de juventude, alegre, destemida, com arrojo. O Maestro Manuel Pleno sentia um enorme orgulho da sua Banda e dos seus Músicos. Uma verdadeira cumplicidade revelou-se sobretudo entre ele e a juventude, quando o chamava bem alto: “- Eh Manolo!?”, ao que respondia: “- Yá!”, terminando todos com o célebre: “E salta Manel, e salta Manel, olé, olé!...”. E saltava. Saltava com um brilho de alegria nos olhos. Brilho que foi, infelizmente, desapare-cendo, pela doença. Quis o Destino levá-lo no dia 22 de Agosto de 2006. A Filarmónica Pampilhosense estará eternamente grata pelo seu carácter, profissionalismo e persistência que demonstrou durante os 16 anos que esteve como Regente.
Daniel Vieira |
Daniel João Nunes Vieira nasceu na Pampilhosa no dia 29 de abril de 1976. A sua carreira artística teve uma importante influência do seu Avô materno, João Nunes.
João Nunes (1910-2000) era natural de Góis, tendo vindo, bastante novo, trabalhar para a Pampilhosa, onde casou, terminando a sua vida ativa na Estação dos Caminhos-de-ferro. Os seus filhos foram também músicos na banda, pois esteve durante muitos anos ligado ao associativismo na filarmónica da terra, como elemento da Direção e porta-estandarte. Nunca aprendeu música, mas a sua influência perante os filhos e alguns dos netos foi bastante profícua.
Daniel Vieira iniciou os seus estudos musicais básicos em 1984 com o Maestro Joaquim Simões Pleno e, mais tarde, após uma interrupção nos estudos, com o Maestro Manuel Lindo Pleno. Ingressou na Escola de Música da Filarmónica Pampilhosense em 1990. O seu instrumento de eleição foi o saxofone tenor.
Em 1995, a convite do Maestro titular, Manuel Pleno, entra para o grupo de monitores da Escola de Música da Filarmónica Pampilhosense, sendo o coordenador da mesma desde 2006.
Licenciado em Educação Musical na Escola Superior de Educação de Coimbra, teve como professores o Maestro Virgílio Caseiro (Direção Coral e Instrumental), Rui Ferreira (DCI/Análise e Técnica de Composição) e César Nogueira (Formação Musical/Piano), entre outros.
Ajudou a formar alguns projetos dentro do seio da Filarmónica Pampilhosense, tais como a Orquestra Juvenil da FP (1998), a OLPA big band (Orquestra Ligeira da FP) (2005), o grupo de jazz, The Dixie Kool Gang (2009) e a Universitários de Coimbra Band (UCBand) (2010).
Com vista à sua formação a nível de direção de orquestra de sopros, tem participado pontualmente em ações de formação organizadas por várias entidades, tendo já trabalhado com os Maestros: Valdemar Sequeira, António Saiote, Eugene Migliaro Corporon, André Granjo, Tristão Nogueira, José Pedro Figueiredo e Francisco Ferreira.
Compôs ou musicou alguns temas para as marchas populares do Travasso (Mealhada), Anadia, Luso e Cantanhede, bem como para algumas escolas da região. Tem também alguns trabalhos para banda filarmónica já finalizados, embora não publicados.
Integra pontualmente a formação Banda Fórum – Filarmónica Portuguesa, dirigida pelo Maestro Afonso Alves, tendo já atuado em vários locais, destacando-se a nobre Sala Suggia da Casa da Música do Porto, em 2009.
Em termos diretivos, foi secretário da Direção da Filarmónica Pampilhosense, entre 1998 e 2007, e Vice-Presidente da mesma Direção, no biénio 2009/2010.
É também um dos colaboradores do semanário Jornal da Mealhada.
Desde 2006 é o diretor musical da Secção de Teatro do Rancho Folclórico e Grupo Etnográfico da Pampilhosa (RFGEP/GEDEPA) e, desde 2011, da secção instrumental e vocal do respetivo grupo de danças.
Desde o ano letivo de 2006/2007 participa no projeto das Atividades de Enriquecimento Curricular (Expressão Musical), proporcionado pela Câmara Municipal de Mealhada, nas escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico do Município.
É o diretor artístico da Filarmónica Pampilhosense desde o dia 27 de outubro de 2006. Em dezembro do mesmo ano, numa "prova de fogo", dirigiu a FP e o Grupo Coral Magister (Mealhada), num concerto de homenagem póstuma ao Maestro Manuel Lindo Pleno, no Cine-Teatro Messias, na Mealhada.
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